Opção pela barbárie

Noticiários e análises sobre segurança pública estão contaminados por alarmismo, distorções e hipocrisia. A indignação popular apazigua as verborragias antagônicas de sempre, gerando uma cômoda paralisia diante da suposta insolubilidade do problema. Humanitários e repressores divertem-se em retesar permanentemente seu cabo-de-guerra, numa tácita concordância pela inatividade. As classes dirigentes, fazendo caretas condoídas em protestos dominicais, sabem que enfrentar as verdadeiras questões é mais aterrorizante do que deixar tudo como está.

Os conservadores disfarçam o retumbante fracasso da legislação antidrogas com a vilanização dos “Traficantes”, coletivo de “Bandido”, o agente do “Crime Organizado”. São jargões vazios, aos quais oportunistas recorrem para purgar as tragédias cotidianas. A “Droga” é inimigo útil: indestrutível, disseminada, servirá eternamente como pretexto para lançar um manto de proscrição sobre os desvalidos que a civilização prefere ignorar. Todo movimento em prol do rigor criminalizante (leis secas, toques de recolher, penas capitais, maioridade penal) possui características indisfarçáveis de higienização pública.

Enquanto isso, boa parte da esquerda insiste na ilusão de que a desigualdade social explica (ou justifica) as complexas cadeias de fatores que geram a violência. Ninguém trucida inocentes apenas porque é pobre, analfabeto ou viciado. Há canibais na Alemanha, fanáticos genocidas no Japão e nos EUA, pedófilos no Canadá e nos países escandinavos, terrorismo, estupros, assassinatos em série e máfias por todo canto. A particularidade brasileira reside numa conivência generalizada com a ilicitude. Recorrer às mazelas das comunidades carentes para absolvê-las de cumplicidade com criminosos é determinismo canhestro e apologia da impunidade. O apaziguamento paternalista incentiva, por reação, o segregacionismo étnico-social praticado por policiais e milícias clandestinas.

Optando pela delinqüência generalizada, o país colhe dissabores previsíveis e merecidos. Uma sociedade que tolera as selvagerias perpetradas pelo sistema carcerário vigente não tem direito moral de clamar por justiça ou fingir perplexidade quando os monstros saem das catacumbas para devolver-lhe a degradação em moeda equivalente. É flagrante estupidez imaginar que um adolescente pode passar por torturas e sevícias diárias sem se transformar num demente sanguinário. Governantes que permitem o empilhamento de seres humanos seminus e doentes em masmorras infectas, negando-lhes as mais elementares necessidades da vida animal, são criminosos piores do que suas vítimas.

Medidas sociais, urbanistas ou educativas não atingem os problemas específicos da segurança pública. É necessário resgatar os alicerces constitucionais do Estado de Direito, antes de imaginar um edifício democrático igualitário. As providências imediatas, urgentes, independem de humores ideológicos e não deixam de ser óbvias só porque estorvam a rotina dos contemplativos. Cabe ao Judiciário exigir das administrações locais que sanem o absurdo prisional (com metas e prazos rígidos), sob pena de libertação dos encarcerados e interdição desses covis putrefeitos. Cabe às autoridades policiais limpar impiedosamente as corporações dos seus notórios canalhas. Cabe aos governos abandonar os combates vazios e concentrar-se num desarmamento absoluto e inflexível da população, impondo-o até às regiões mais violentas, custe o que custar. E cabe à opinião pública conscientizar-se de que a predominância da legalidade é preferível a quaisquer alternativas ditadas pela conveniência.

O resto não passa de palavrório inútil.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos