Poderes sob pressão
Já que o eleitorado despreza seus apelos oposicionistas, a grande mídia decidiu pular a etapa do convencimento público. Sagrando-se porta-voz de uma população que a rejeita, ela utiliza essa falsa representatividade para agir diretamente sobre as cúpulas decisórias soberanas. Parlamentares e magistrados viraram instrumentos para legitimar projetos que foram derrotados pelas vias democráticas.
A oposição, cujos votos ajudaram a absolver Renan Calheiros, sempre defendeu a votação secreta no Congresso. Quando PSDB e PFL (DEM) elegeram ACM no Senado e depois Severino Cavalcanti na Câmara, os congressistas não sofreram qualquer assédio da imprensa. Tampouco a cassação de José Dirceu justificou tamanha transparência. Respaldados pelo jornalismo seletivo, conchavos de gabinete usam a subjetiva noção de “decoro” para substituir os trâmites judiciais e o sufrágio na ratificação de mandatos legislativos.
Porém nada se compara, em ineditismo e gravidade, ao recente episódio do STF. Ministros tiveram a intimidade devassada, sofreram constrangimentos e foram induzidos a expor desavenças pessoais. Os veículos centralizaram sua artilharia naqueles que, sabidamente, cogitavam não acatar certas denúncias do procurador-geral. O Tribunal, transfigurado em arena de intrigas partidárias, ignorou as incongruências da acusação e julgou matérias constitucionais sob a ameaça do embaraço público.
O jornalismo da vendeta ideológica aposta na incerteza jurídica e na balbúrdia institucional. Quer transformar o STF numa esfera superior de condenações políticas irreversíveis e o Congresso em árbitro de questões técnicas que não lhe competem e que são, afinal, menosprezadas. O objetivo inconfesso é neutralizar a perigosa interferência do eleitor e, fazendo-o vilão ocasional, sacrificar a vítima de sempre.