Time pobre não tem vez

A fórmula de pontos corridos representa a definitiva elitização do futebol nacional. Em sua vigência, as melhores colocações do Campeonato Brasileiro serão sempre ocupadas por clubes que receberem os maiores repasses financeiros, enquanto competidores menos favorecidos lutarão contra o rebaixamento e consolações efêmeras.

Esse fato inquestionável tem sido minimizado pela crônica das capitais, graças ao título aparentemente imprevisível do Flamengo e a fracassos isolados de outros poderosos. Mas em nenhum caso a tendência geral do modelo foi contrariada.

Qualquer processo classificatório permite milhares de métodos, todos sujeitos à interferência de arbitragens tendenciosas, tribunais abjetos, influências diversas. Ainda que houvesse debate aberto e desapegado sobre novas estratégias de competitividade (por exemplo, o sorteio de atletas promissores, nos moldes dos “drafts” da NBA americana), qualquer moralização do esporte passaria necessariamente pela distribuição eqüitativa das verbas milionárias oriundas de patrocínios e transmissões televisivas.

O sistema atual, defendido como o mais “justo”, legitima uma estrutura viciada, onde as cotas definem previamente o encaminhamento da disputa. As disparidades resultantes, imensas e decisivas, inviabilizam qualquer ilusão de equilíbrio: eis o mecanismo que se esconde no elogio à regularidade dos clubes bem-sucedidos. Ora, nada contrariará o mito da “competência” dos vitoriosos enquanto os adversários estiverem inferiorizados desde o início.

Os privilégios transformam as competições longas e desgastantes em farsas destinadas ao regozijo de uma aristocracia imutável que domina os bastidores da cartolagem. Por isso há tanto medo das surpresas possibilitadas pelo sistema de grupos, ou “mata-mata”, com decisões sucessivas. O monopólio não admite o imponderável.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Revista Caros Amigos