Transitus interruptus

Honrado senhor presidente da Emdec: parafraseando Rubem Braga, quem vos escreve é um desses desagradáveis sujeitos chamados “motoristas”. E, como tal, venho humildemente solicitar que o senhor determine a revisão do controle de tráfego na cidade, antes que ele caia no anedotário popular.

Basta um pouco de espírito investigativo para perceber que há algo muito errado com o modelo vigente. Operando sob programações equivocadas, os semáforos são mal coordenados entre si e com as velocidades máximas das vias. Cruzar os bairros movimentados virou um suplício de paralisia inútil diante de faróis intermináveis. A chamada “onda verde” sumiu das avenidas. No lugar de uma sucessão de cruzamentos livres que privilegie o tráfego em determinado ritmo, encontramos diversos pontos do percurso obstruídos. Quando a velocidade é contida pelos radares, os carros andam por uma ou duas quadras, param, esperam e novamente percorrem uma fração do caminho.

Guiar em Campinas é uma sucessão de expectativas frustradas, um “transitus interruptus” que agrava os congestionamentos, exige muito mais combustível e outros insumos veiculares (graças ao uso continuado da primeira e da segunda marchas), aumenta poluições diversas e eleva o risco de acidentes. Sim, é mais perigoso, pois os motoristas afoitos e indisciplinados que correm acima do permitido ou aceleram em sinais amarelos realmente conseguem apanhar os cruzamentos seguintes abertos.

O fenômeno pode ser proposital ou involuntário. Na primeira hipótese, um contribuinte dado a lucubrações conspiratórias poderia desconfiar do arranjo. Quanto lucram os distribuidores e postos de combustíveis com os arranques da gigantesca frota que circula em Campinas? E se um paranóico demonstrar que essas empresas realizaram doações milionárias para certas campanhas eleitorais? Não seria desconfortável?

Imaginemos, ao contrário dos maldosos, que inexiste método na bagunça. Que, apesar de toda a tecnologia desenvolvida para o setor, a Municipalidade ainda opera segundo os humores do acaso, num padrão maluco de casualidades. Sendo assim, não adianta comemorar os espasmos de fluidez do sistema, pois um desarranjo aleatório dos semáforos tende estatisticamente a gerar combinações positivas efêmeras. Estamos, portanto, fadados a uma loteria cotidiana, a um caos que acarreta prejuízos a parcelas imensas da população e dividendos generosos para um grupo seleto de felizardos.

Claro, podemos brincar de conjecturas. Não sabemos como poderia ser se assim não fosse, portanto é fácil afirmar que o modelo existente foi engendrado para evitar coisa pior. E tudo sempre pode ficar pior. O problema é que está errado, senhor presidente, e ninguém parece disposto a admiti-lo.

Artigos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Correio Popular