Apenas um filme
Rolariam de rir se eu não estivesse, falando, tão sério. “Vou fazer um filme”, eu disse. Cumprimentaram-me com os mesmos votos fanhos que se dá aos loucos ou doentes terminais e a coisa parou por aí.
Já há vários reveions já desisti de vã glórias e nem cogitei fazer carnaval. Se não acreditam que eu sou eu, quiçá... Deixei quieto. Antevi um dia em que, no palanque de nossa monotonia proverbial, gritaria “atenção, cidadãos da nobre, reta e cafeeira Campinas de Santa Cruz, terra abençoada! Estamos cá a decidir que rodaremos em breve um filme cinematográfico! Não, sem tumulto, calma, pessoal! É só um filme!”
Mas as turbas não tentaram invadir o palannque para sugar o herói como fiéis antropófagos em busca da salvação, por todo o esplendor de cento e três anos (segundo a ONU) de arte cinematográfica, extasiados por assistirem à inserção, na história dessa seleta arte, de brasileiros - e mais! De campineiros! E da ci-da-de de Cam-pi-nas!
Não, as turbas famintas não mexeram uma sobrancelha. Fora daquela privilegiada militância de que, honrado, participo (cujos membros aliás me tratam como se eu dissesse ser Bonaparte), a massa de conterrâneos mal piscou.
Sou dos que imaginam coisas tipo salário-escritor, a pensão-do-branco (pelos três primeiros meses desse torturante distúrbio da criação), a imunidade para literatos, a permissão para casamento de escritores, etc. Até nem reclamo se pingar um carvãozinho quente sob a minha sardinha. Mas a grande lição não vem de me descobrir enfim a sós com minhas ganâncias megalômanas.
O choque vem nesse silêncio, a inércia estupefacta de zumbis que se acotovelam em direção a nada, ou talvez numa circunferência já entortada e infinita, balbuciando umas palavras de apoio como se babassem elástico colorido. E eu de mãos crispadas, gritando que estamos fazendo o primeiro filme depois de 45 anos, utilizando a cidade como personagem, com gente daqui, etc. E esbarram em minha estupefação, rosnando palavras-chave de apreço e força.
O melhor disso tudo é
que, na base do bate-estacas, vou aprendendo a ocupar de volta o ínfimo
posto que me foi concedido e fazer um filme como quem assa uma esfirra. Como
se fizéssemos, a quarenta sonhos, um poema-resumo. Esse pragmatismo,
se me perdoam o linguajar, ajuda a tocar o artesanato brancaleônico
dessa “cultura” e o fato de que, no final das contas, é
apenas um filme.