Eu quero andar a 120
Acredito que o nobre leitor seja um dos que detesta atrasar - e tenta magoar o menos possível a pessoa que o espera já há trinta, sessenta, cem minutos. Para nós, o atraso é nocivo, uma espécie de mentira flagrante. Às vezes significa perder um ano, ou vários; às vezes, a própria vida, ou fortunas, ou amores.
É sempre em agonia que este atabalhoado escriba cruza a cidade no conduzir de sua vidinha. Desespero cotidiano. Pois algo sempre conspira contra os que têm fama de atrasões. Parece que gostam de atrasar, que o provocam ou mesmo aceitam, desleixados. O tempo despenca, como de baldes sobre cada porta. Probleminhas se transformam em caos, os telefonemas pipocam. Já estás atrasado antes de chegares, para então saires, ires e chegares.
E é necessário se entregar a missões que são verdadeiros desafios à física. Tornamo-nos pilotos e atletas com habilidades invejáveis, corajosos como os intrépidos heróis das causas perdidas.
O esporro é inevitável, a perda, definitiva. Mas avançamos, violentos, mesmo cruéis, mártires. Não desejamos o mal, mas qualquer obstáculo que se nos interponha vira um inimigo, a ser ultrapassado ou dizimado.
Pelo encavalar das circunstâncias, meu dia oficial de atrasos é o domingo. Dia como qualquer outro, com os mesmos dilemas e histerias, e o agravante de ser um domingo, o corredor que liga os vestiários ao gramado, para o jogo-semana. Mas os restantes 99% dos cidadãos o encaram como, bolas, um domingo. O domingão à tarde, pós-churrasco, a brisa no coco, o soninho gostoso...
A lentidão e o
despreparo com que se guia num domingo são dignos de estudos profundos,
com base em mitos de origem. Chega-se a descalabros impublicáveis.
Foi num dominical e solitário colapso nervoso que conheci as novas
transformações que o trânsito campineiro está para
adotar, impondo à população um exercício de memória
e adaptabilidade típicos da época. Entroncamentos hilariantes,
labirintos estapafúrdios e milhares de crateras
conviverão com centenas de novos radares, lombadas, tartarugas e outros
expedientes dignos do Big Brother no “Admirável Mundo Novo”.
Carroças caindo
aos pedaços, assassinos irresponsáveis ou dopados, sinalização
inexistente, pavimentação do século passado, nada é
obra dos maus. As auto-escolas deitam e rolam, enquanto qualquer vertebrado
oco consegue uma carteira de motorista.
Os que sabem dirigir, possuem bom senso e têm o péssimo hábito
de trabalhar demais, até nos domingos, são obrigados a seguir
esse moroso ritmo que as despreocupadas autoridades nos impõem. Só
conseguem, com isso, aumentar a taxa de desemprego e de suicídios neste
pacato vilarejo.
Cara pálida - Descoberto um dos personagens mais patéticos da história do cinema: o que esse Matthew McConaughey “interpreta” no filme “Contato”, de Robert Zemeckis. Não há palavras. Que será aquilo?
É que, na histórica oportunidade de enviar um espécime humano às longínquas formas de vida que coabitam conosco o espaço sideral, escolheram uma cidadã americana para nos representar. Com a ajuda do (gente, é incrível) destemido teólogo (sério!) McConaughey. Quanto ao terráqueo escolhido, nada de exuberância física, conhecimento artístico ou existencial. Quem nos representa é mesmo a Jodie Foster. Êbaaa!
Bidu - O cineasta Rui Guerra acusa a Globo de protecionismo. Anda dizendo que a maior fabricante de novelas do mundo, e maior exibidora de “cinema” norte-americano no Brasil, não quer que a produção audiovisual brasileira se desenvolva. Ah, vá!