Guilherme Scalzilli

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Certamente há mais debates sobre o cinema brasileiro do que cinema brasileiro ropriamente dito. Os bares não abrigam quem pense a sério sobre isso. Especula-se, especula-se. Querem a linguagem verdadeira. A “imagem verdadeira” disso aqui é bóvia olhando em volta. Mas quem passa a noite vendo novela pode esboçar ditames sobre cinema (e brasileiro)?
As reações da intelectualidade ao conservadorismo (inegável) de “O que é isso, companheiro?” soaram, déja vu, pateticamente retrógradas. Bruno Barreto contou sua versão sobre o que ninguém tem coragem para contar, fez em dólar, e talvez enriqueça com a polêmica e a qualidade das interpretações. Se visou um didatismo estilo Costa Gavras, por outro lado conquistou um controle de atmosfera quase impecável. Certo que torturador com peso na consciência e embaixatriz histérica combinam, atrapalhando o que os outros atores conseguem extrair. Mas se opor a um filme regular, correto e conservador, muito bem feito e oportunista, já vira tontice.
O cinema é careta, atado e medroso desde que começou a falar. Os grandes poetas da imagem sempre estiveram às voltas com algum tipo de censura, financeira ou ideológica, e os verdadeiros visionários continuam com camisas de força e lobotomizados pela mídia em seu sanatório profissional, o ostracismo. Não é fácil entender que não há cangaceiros girando espadas e citando Aristóteles por aí.

O povo quer sangue - No longo trajeto que separa as retinas de perplexos cinéfilos dos esforços visionários do cineasta, a realidade é bem diferente. Exibidores, distribuidores, produtores, diretores de produção e supervisores querem mesmo é grana, e viva.
Enquanto isso, abonados intermediários matam o cinema brasileiro a porrada. É tecnicamente impossível que um filme brasileiro consiga tanta divulgação, com tantas salas de exibição, quanto qualquer Chazéca sem camisa e com a cara pintada de verde, matando marciano.
Lamentável é que, não dominando técnicas de administração e marketing, certos artistas sejam obrigados a desenvolver outros veículos, abdicando do sonho e da coragem de quem ama o que faz. Cineastas das melhores estirpes se escondem sob outras máscaras intelectuais, empobrecendo as mesmas e enchendo-as de burocratas ou oportunistas.
No lado oposto da gangorra, os orgulhosos e temerários escolhidos, minoria absoluta, dão até beijo na boca para continuar ganhando salários modestos e indo às festas.

Boi com sono - Depois do catolicismo, o cinema é a mais lucrativa e eficaz vitrine cultural dos tempos, e sob qualquer regime. É compreensível que governos, artistas e intelectuais que vivenciaram o mesmo sonho social-democrata queiram colocar seus respectivos talentos a favor de estéticas afins. Mais grave, no entanto, é ver como também a grande maioria dos estreantes se apega a preceitos estéticos legitimadores, embora não tenham participado de sua criação. Chamem de censura técnica, se quiserem. Sem som, fotografia, edição, enfim, sem embalagem, o filme “mal acabado” está fadado à extinção.
Padrões, carimbos, rotulinhos legais. Proibiriam “Eles não usam black-tie”, “Zero de conduta”, “Guerra nas Estrelas”. Se é para ser assim, então bailamos. Como em outras manifestações artísticas, o cinema não pode depender da qualidade de seu suporte, do acabamento e do ilusionismo. Obras primas criadas com simplicidade de prinípios e de recursos, perenes, inovadoras, são louvadas, enquanto a platéia se esquece que excêntricos, marginais e mesmo doidos varridos as produziram.
Se formos esperar que a fervilhante realidade permita estéticas nobres, luzes quentes, confortáveis condições de trabalho e pomposidades, o artista acomodado vai murchar na mesa de bar, eternamente atacando os que brutalizam nossa expressão com estrangeirismos. Talvez por isso tenhamos tanto medo de parecermos preguiçosos.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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