Micoleão
Certamente há
mais debates sobre o cinema brasileiro do que cinema brasileiro ropriamente
dito. Os bares não abrigam quem pense a sério sobre isso. Especula-se,
especula-se. Querem a linguagem verdadeira. A “imagem verdadeira”
disso aqui é bóvia olhando em volta. Mas quem passa a noite
vendo novela pode esboçar ditames sobre cinema (e brasileiro)?
As reações da intelectualidade ao conservadorismo (inegável)
de “O que é isso, companheiro?” soaram, déja vu,
pateticamente retrógradas. Bruno Barreto contou sua versão sobre
o que ninguém tem coragem para contar, fez em dólar, e talvez
enriqueça com a polêmica e a qualidade das interpretações.
Se visou um didatismo estilo Costa Gavras, por outro lado conquistou um controle
de atmosfera quase impecável. Certo que torturador com peso na consciência
e embaixatriz histérica combinam, atrapalhando o que os outros atores
conseguem extrair. Mas se opor a um filme regular, correto e conservador,
muito bem feito e oportunista, já vira tontice.
O cinema é careta, atado e medroso desde que começou a falar.
Os grandes poetas da imagem sempre estiveram às voltas com algum tipo
de censura, financeira ou ideológica, e os verdadeiros visionários
continuam com camisas de força e lobotomizados pela mídia em
seu sanatório profissional, o ostracismo. Não é fácil
entender que não há cangaceiros girando espadas e citando Aristóteles
por aí.
O povo quer sangue
- No longo trajeto que separa as retinas de perplexos cinéfilos
dos esforços visionários do cineasta, a realidade é bem
diferente. Exibidores, distribuidores, produtores, diretores de produção
e supervisores querem mesmo é grana, e viva.
Enquanto isso, abonados intermediários matam o cinema brasileiro a
porrada. É tecnicamente impossível que um filme brasileiro consiga
tanta divulgação, com tantas salas de exibição,
quanto qualquer Chazéca sem camisa e com a cara pintada de verde, matando
marciano.
Lamentável é que, não dominando técnicas de administração
e marketing, certos artistas sejam obrigados a desenvolver outros veículos,
abdicando do sonho e da coragem de quem ama o que faz. Cineastas das melhores
estirpes se escondem sob outras máscaras intelectuais, empobrecendo
as mesmas e enchendo-as de burocratas ou oportunistas.
No lado oposto da gangorra, os orgulhosos e temerários escolhidos,
minoria absoluta, dão até beijo na boca para continuar ganhando
salários modestos e indo às festas.
Boi com sono
- Depois do catolicismo, o cinema é a mais lucrativa e eficaz
vitrine cultural dos tempos, e sob qualquer regime. É compreensível
que governos, artistas e intelectuais que vivenciaram o mesmo sonho social-democrata
queiram colocar seus respectivos talentos a favor de estéticas afins.
Mais grave, no entanto, é ver como também a grande maioria dos
estreantes se apega a preceitos estéticos legitimadores, embora não
tenham participado de sua criação. Chamem de censura técnica,
se quiserem. Sem som, fotografia, edição, enfim, sem embalagem,
o filme “mal acabado” está fadado à extinção.
Padrões, carimbos, rotulinhos legais. Proibiriam “Eles não
usam black-tie”, “Zero de conduta”, “Guerra nas Estrelas”.
Se é para ser assim, então bailamos. Como em outras manifestações
artísticas, o cinema não pode depender da qualidade de seu suporte,
do acabamento e do ilusionismo. Obras primas criadas com simplicidade de prinípios
e de recursos, perenes, inovadoras, são louvadas, enquanto a platéia
se esquece que excêntricos, marginais e mesmo doidos varridos as produziram.
Se formos esperar que a fervilhante realidade permita estéticas nobres,
luzes quentes, confortáveis condições de trabalho e pomposidades,
o artista acomodado vai murchar na mesa de bar, eternamente atacando os que
brutalizam nossa expressão com estrangeirismos. Talvez por isso tenhamos
tanto medo de parecermos preguiçosos.