Guilherme Scalzilli

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O triunfo da simplicidade

A avenida, com suas dez vias, em ida e vinda, ressona, cobrona. Não se vê o asfalto. Só seu couro de chapinhas coloridas, desiguais, arfando fumaça mortal. Repipocam os raios do sol a pino. O monstro espera, em peristaltismo impaciente, teso. Nota a nota, a insistência, em dois tons, agudo, grave, agudo, grave, azucrina, teima, como se parada.

Os braços brancos balançam, um de cada janela, como se a ambulância tivesse tentáculos. O motorista ainda buzina e acende os faróis, em meio àquele pé-nó, pé-nó, pé-nó e os outros começam a ajudar, se espremem, raspam-se aqui e ali, um outro sobe aos solavancos no meio-fio. O ônibus nada pode, logo simplesmente desliga.

Movimentos decididos na traseira, as janelinhas abertas entrevendo soro, canudinhos, aparelhos. Os enfermeiros berram, a ambulância péé-nó, péé-nó, péé-nó, desesperada, mexendo como louca suas antenas, para galgar centímetros, a piscante manchinha no dorso do bichão inerte.

A poucos metros, as salas, escuras e seguras como templos, deixam esvair imagens e sons de todas as nacionalidades. Sortudos os fiéis desta seita que lhes permite esquecer o caos, a guerra e o trabalho a explodir na superfície. Maravilhosos esconderijos. O absurdo de assistir a três ou quatro filmes no mesmo dia, por semanas seguidas, só se equipara ao absurdo de viajar 150 km, todo dia, para isso.

“A vida é tudo que temos”, de Wolfgang Becker e “Não é uma canção de amor”, de Jan Ralske, ambos da Alemanha; “Entre Marx e uma mulher nua”, de Camilo Luzuriaga (Equador); e “Junk Mail”, de Pal Sletaune (Noruega), foram boas surpresas da 21 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (dentre os longas, claro, que a seleção dos curtas-metragens foi patética).

Mestres como Stephen Frears (“O Furgão”), Krysztof Kieslowski (“Cicatriz”), Manoel de Oliveira (“Viagem ao princípio do mundo”) e Abbas Kiarostami (“Gosto de Cereja”) estavam fadados a não levar prêmio. De alguma forma, são grandes demais para mostras. Apenas o incrível “Jazz’34”, de Robert Altman, ganhou como documentário - apesar de “Tupamaros”, de R. Hoffmann e H. Specogna, ser melhor.

São toneladas de película, impossíveis de serem avaliadas - e a seleção do público obedece a simpatias e lirismos que revelam o público e não as obras. O mais marcante é que os melhores filmes são de cineastas em início de carreira, retratado anti-heróis em crise diante da desagregação do Estado Social e da falta de perspectivas. O resultado mais eficaz foi conseguido por “Ou tudo ou nada” (The full monty), do estreante Peter Cattaneo. Tragicomédia inglesa que levou a platéia às gargalhadas desvairadas, o filme assinala uma tendência ao realismo ácido, irônico e dotado de comoventes declarações de amor ao cinema e à vida.

Sem a auto-piedade e as estilizações das últimas décadas, firmam-se cinematografias nacionais pouco preocupadas com arroubos técnicos ou metafóricos e mais voltadas para os personagens, o texto, o cotidiano e a simplicidade. Paradoxalmente, isto ajuda a entender o injustificável prêmio do público para “A vida de Jesus” (do francês Bruno Dumont).
Esses filmes todos vão passar aqui na província? Pergunta imbecil...

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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