Onde a participação começa
Abandonado na cauda de um congestionamento quilométrico, chego a ter inveja dos que passavam meses a fio numa das antigas caravelas. Antevejo os trinta e nove funcionários da equipe de obras se empenhando em pintar linhas brancas paralelas no asfalto – interrompendo bruscamente a vida de milhares de honestos contribuintes que perdem oportunidades, saúde e dinheiro por causa deles.
São igualmente notórios os grandes desastres envolvendo dirigíveis, trens, aviões, naves especiais e quantos outros meios de transporte se pôde inventar. O trânsito brasileiro mata mais do que guerras sanguinolentas – eis outro dado de domínio público.
O novo código de trânsito zomba da nossa pressa. No confronto de consciência, a mortandade e a destruição nos fizeram esquecer que qualquer causa, artesanal, mecânica, técnica ou tecnológica, trágica ou não, é de responsabilidade humana. Tanto o equipamento, o cálculo e o risco quanto a imprudência e a corrupção só tiveram origem no agente supostamente racional que deu início ao processo.
Leis draconianas e terrorismo
institucional, se não foram criados apenas para alimentar a arrecadação
e o autoritarismo, serão incapazes de acrescer qualquer benefício
à caótica situação do trânsito brasileiro
se os cidadãos não entoarem o coro da qualidade de vida. Já
se observou que o tráfego arranjou uma fórmula em que todas
as regras sejam burladas para que haja um mínimo de fluxo e tranquilidade.
Daí se conclui que, se existe alguma serventia das leis à cidadania,
a sociedade (que abarca motoristas tão díspares quanto torcedores
de futebol) deve ser ouvida na sua multiplicidade para que se criem medidas
legais eficazes.
Tais medidas, ao invés de estebelecerem punições extremas
para delitos secundários e convenções irreais, deveriam
ser criadas em conjunto com cidadãos que efetivamente encaram o inferno
das grandes cidades e estradas brasileiras. Talvez ouçamos ainda aqueles
milhões que agonizam diariamente no transporte público que o
governo deveria manter e aprimorar. Mas não há leis para o governo,
há?
Índio não é gente – Porque se índio fosse gente, esses sacripantas juvenis, espúrios representantes da mais lamacenta excrescência, eles e seus pais, criminosos indecentes, propagadores da crueldade dos genocidas mais sádicos, teriam sido condenados imediatamente por seu crime abjeto. Se índio fosse gente, ficaríamos chocados com a decisão desses desembargadores (desembargadores!). E, em lágrimas, esmagados pela vergonha, procuraríamos o abrigo do perdão.