Soluções fáceis
Não se trata de nenhum grande ciclo, porque a evolução do conhecimento humano não obedece a ondas. Mas a informação pode tanto, no século XX, que ainda se vê catastrofismos como o que assola (já há décadas) os meios de comunicação, na mesma medida em que ganham mais e mais poder e audiência.
O sentimento de que algo vai muito mal tem um alicerce na arte: uma parte do contemporâneo quer comer o espectador, ou ser comida, e outra bem significativa leva a atenção para tudo aquilo que não é orgânico, tampouco humano. A ênfase na conscientização, ou alfabetização, estética; a idéia do “urgente”. O retorno de um inconformismo mudo e mútuo ajuda a proliferar dândis e mártires utopistas, mas, para variar, é tudo adequado às normas que finge combater.
“Modernidade”. O conceito é equivocado. A importância que a humanidade se dá também. É quase impossível convencer alguém de nossa insignificância temporal, e que clintons e malufes e fidéis são ordinários rostinhos nos livros de sempre, e nós, dessa racinha imunda, desapareceremos com nossos botões em meio aos outros que (cada vez mais) nascem todos os dias.
Os holocaustos sempre tiveram prevenções extremamente simples, e continua assim. No momento em que alguém se dá conta, o problema fica obsoleto. Penetrando as miudezas do planeta, a chamada mídia faz entender que tudo está sob controle, que as tragédias se repetiram em 1997, que passou muito rápido, e em geral piorou, como havia sido em 96, 95, 94, 93...
É que cada vez mais assistimos àqueles horrores que sempre existiram, mas nunca havia gente louca o suficiente e equipamentos apropriados para chegar a eles e registrá-los. Os remédios realmente eficazes, simplesinhos de tudo, são proibidos. A solução fácil, no reveion, é induzir as massas a uma balbúrdia de insensatez, amargura e furdunço, com desfile de luxo e pobreza nas proporções de sempre. Eu não caio, que não sou otário.
Babel - O trânsito e a telefonia dividem o troféu de 97. Contribuíram tanto para o estresse geral da nação que deve ter sido de propósito. Projetos eleitoreiros inflam a demanda e lhes desviam os recursos e não há decência a pé, de bumba, de taxi, de lotação, avião, navio ou sonho. Me lembra um recapeamento da Bandeirantes, que tinha a placa: “obra financiada com recursos do pedágio”. Ué, rapai! Inda bem que não é do ICMS!