Vermelhinhos da Silva
No filme “Mera coincidência” (título absurdo), David Mamet e Barry Levinson encabeçam uma das mais diretas desmitificações da história do cinema estadunidense. Sabemos que, nos meios hollywoodianos, a lama é proporcional à de Sarno, o que já fo mostrado por obras importantes. Mas na trama, agora, cinema e política se unem numa manobra que manipula a opinião pública e simplesmente reelege o Presidente da República.
Não admira que a crítica conservadora o veja como sátira, abarcando nessa espécie de pândega situações e personagens (e disso sabem os críticos) que jamais seriam apenas “satíricas” para um escritor como Mamet.
É assustador, principalmente com a importância dos envolvidos, ver as coisas tão escancaradas. Clinton quer seguir uma linha popularesca similar à do prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani. Mas a Casa Branca permitir essa “sátira”, encarnada por astros, em horário nobre... Permite. “E como será a realidade?”
Bastava caminhar um pouco, no cinema ao lado, para ver Richard Gere bradando contra o governo chinês. Tudo no mesmo estilo daqueles filmes de propaganda de guerra, John Wayne, Alexandre Nevksi e cia ltda. Nessa China que subjuga (!) um bilhão de cabeças alfabetizadas, alimentadas e saudáveis, luta o bom Gere.
Nós, em meio ao triunfo da democracia, entre saques, índios em extinção e deputados cínicos. E o filme de Levinson faz dinheiro falando que se faz dinheiro às custas da nossa ignorância. Ou ingenuidade? “Mera coincidência” até que não é um título tão bobinho assim, para essa mera ficção.
Aos trinta anos de idade, a revolução cultural de 68 fracassou, dizem aqueles que associam democracia a capitalismo idiota. “Justiça vermelha”, “Força aérea um”, “Até o limite da honra” e tudo que há na linha “exército americano” servem de exemplo daquilo que “Mera coincidência” desmascara. São propaganda de guerra. E, se olharmos como gente grande, encontraremos uma estranha obsessão por enterrar certos ideais que nos custaram muito, em sangue e encarnações. Respeito aos direitos humanos, igualdade social e acesso às esferas de poder político viraram sinônimos de comunismo ou outros palavrões mais.
As lutas, todas, continuam. Os saques continuam, os conflitos agrários também. São os comunistas, depredando, roubando, matando de novo. E a polícia, salvadora, nos protege desses desviados sociais. Assim, dormindo como monges e comendo como porcos, podemos livrar a consciência, enfim, abraçados à miséria, à violência, à corrupção, à mentira e a todas as repressões do maravilhoso neo-liberalismo democrático. Que bom que não somos vermelhos!