Guilherme Scalzilli

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Do que não foi

Somos responsáveis por aquilo que cativamos, ensina o Pequeno Príncipe (uma das frases preferidas de Felipão). Nunca descobri se isso é bom ou ruim, quer dizer, se é interessante fazer força para influenciar o mundo ao redor, ou se o mundo é bem crescidinho e sabe se virar sem a nossa “ajuda”. Desconfio que, se esta segunda hipótese for correta, o Pequeno Príncipe se tornou um adolescente muito complicado quando conheceu nossa esmagadora pequenez, com o perdão da redundância. Mas, bolas, ele é príncipe.

Todos concordam que somos feitos da interação com o ambiente, a sociedade, os familiares, os amigos e os desconhecidos, até com os estímulos mais sutis, mesmo os que não percebemos, dos sonhos secretos às topadas com o dedinho na quina da cama, passando pelos outros cinqüenta por cento. Mas gostaria de realçar aqui uma outra categoria de formação, outro tipo de tijolo, digamos assim, dessa construção do caráter: tudo aquilo que não conseguimos fazer.

Também de suas frustrações vive o homem, disso já sabemos há tempos. Mas poucos se percebem frutos, materializações às avessas, daquilo que gorou, que fundiu a meio caminho, que se perdeu ou se foi. Afinal, abusando da filosofia de botequim, o não-acontecimento é um acontecimento em si. Um contador que queria ser padre tem, dentro de si, também alguma coisa de padre, uma essência, sei lá. E isso serve para arquitetos, trapezistas, atrizes pornô, doceiras, jornalistas. E vale também para maridos e esposas.
Há pequenos traços fisionômicos de quem amamos em nós mesmos - que coisa cruel de perceber! Ouvi isso um dia e de lá para cá venho observando os casais adúlteros. Sim, os “outros” quando se encontram (ao espanto de alguns, interponho que é perfeitamente possível detectar um casal adúltero, quando desconhecido, principalmente à luz do dia; só não será prudente contar os detalhes, por motivos óbvios).

Bem, observando os tais, pude reparar que não possuem, salvo apaixonadas exceções, um a imagem do outro nas linhas de tempo que os rostos escreveram. Suas fisionomias possuem outras “caligrafias”.

Algo nunca vai bem entre as pessoas nessa situação; é difícil encontrar um adúltero cem por cento feliz. Tranqüilo, nunca. Existe sempre uma sombra, um rabisco abstrato, que mancha os rostos com outras fisionomias quase visíveis, outras carências, outros tempos. Outras convivências. Como se fantasmagórica, a efígie do traído ou da traída sorri, chora, faz os carinhos e as adulações que o “outro” ou a “outra” não completam. E vice-versa, dando essa impressão de conflito permanente, de tensão e fobia. Talvez por isso o adúltero seja, antes de tudo, um angustiado.

Quatro rostos a dialogar em um monte de gritos surdos ao mesmo tempo, o casal adúltero é uma das formas de se entender por que os desejos não realizados, as decisões erradas, as lacunas e tantos outros piparotes da vida são tão úteis que a própria existência tem os contornos daquilo que poderia ter sido, mas simplesmente não foi. E vice-versa.

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© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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