Guilherme Scalzilli

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Piva e o ovo

Viemos devolver-lhe,
chocas, as velhas novilínguas
- é certo que, desferidas
(ou expostas ao porvir),
sejam mais lástimas
e menos labor;
mas ainda resistem,
cá fora, rameiras
na pudicícia atônita,
com seus rebocos à vista,
sua rudeza bucólica,
as corcovas das paisagens.

Dessas carecas vetustas
despreze-se, porém, as alvas tezes:
são memórias de pérolas íntegras.
Nossas pipas suburbanas jazem,
estilhaços de crostas multicores,
taças de efêmero transe,
que os arranha-céus trincaram
e as unhas dos bueiros descascam.

Só o é, sozinho, nos suplanta.
Fora da cloaca mundana,
cupidos prenhes de vertigens
troçam dos nossos destinos:
pedras tênues sem arestas,
cúpidos projetos de pintos,
abortos sempiternos que nutrem.

Só a demência nos suplanta:
só a liberdade, essa forma
orgulhosa de violência.

Vimo-lo envolvê-los em novo,
mas o novo, sangue e júbilo
(novelo nodoso, sítio no morro,
índio com dor-de-cotovelo),
sereno, penado, anoso,
independe de nós.

De novo, em nosso novo há nada.

Agosto de 2001

Inéditos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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