Guilherme Scalzilli

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Encontrou o costumeiro envelope, sem timbres ou remetente, na caixa postal. Continha apenas uma fotografia em preto-e-branco, fedida e brilhante, típica ampliação doméstica – homem idoso numa janela de apartamento. Atrás, endereço e data em letras de máquina.

Desceu do terceiro ônibus no acostamento da rodovia. Atravessou correndo e embrenhou-se no matagal pelo caminho pavimentado, depois escada íngreme, que levava ao campo de terra. Montes de lixo, um reservatório de água totalmente pichado e traves desiguais conviviam em silenciosa tolerância.

Passeou calmamente, desenhando um caracol imaginário pelo bairro. Quase apalpava a tarde azul, naqueles minutos indecisos, restos da manhã, que reduzem tudo a uma opressora desolação. A quitanda vazia, o barbeiro lendo jornal, uma butique de garagem, a oficina assombrada, felinos segredando nos muros, velhos motores oxidando nas ruelas sem calçamento, o gemido contínuo da serralheria pinicado por gritos de criança.

Um prédio solitário comandava o jardim de telhados baixos e paredes incompletas. Era desnecessário, e talvez ar-riscado, conferir o endereço. Caminhando ainda pouco tempo, descobriu, alfinetando a três quarteirões baldios, as chaminés de uma fábrica, restos de curtume ou olaria.

O portão lateral estava aberto. Entrou apalpando o coldre, aguçando os ouvidos de bicho. Entulhos e máquinas esfarelavam por corredores e pátios cuja pedra, há décadas, absorvera a ruína. Mas a carcaça, ainda rija. Nos cantos, onde costumam se abrigar desvalidos de vária estirpe, não viu seringas, garrafas odorosas, pontas de cigarro ou comida.

Subiu à torre, a quinze metros do pavimento. O cume era grande como uma sala de estar, vazado por três aberturas cardeais: ruas quadriculares; o fluxo dos carros mudos na estrada, quase lentos; o prédio no meio da paisagem. Com uma pequena objetiva examinou a fachada, outros andares e as janelas do quarto andar.

Voltando ao centro da cidade, restituiu o envelope à caixa postal, virado para cima. No verso inferior esquerdo da foto desenhara um círculo azul, pois dispensaria suporte humano ou material, aceitando o prazo por omissão. Reencontrou o envelope no dia seguinte, virado para baixo e vazio.

Chegou à torre na manhã de segunda-feira, com valise, mochila e sacolas. Distribuiu pauladas e jogou ao pátio uns cadáveres mornos. Organizou o entulho, secou as poças com jornal e estendeu a lona que seria seu piso. Abriu o colchonete, dispôs fogareiro e lampião, panela e mantimentos no armário de tábuas e tijolos. Para as lentes, o estojo de filmes e demais petrechos, improvisou uma bancada. A valise da filmadora dormia numa cadeira mole, protegida pela toa-lha de rosto. Câmera com teleobjetiva no tripé.

Um potente binóculo norueguês, capaz de invadir distâncias bem maiores, entregava o interior do apartamento como se ele pisasse aquela desgastada imitação de tapete persa, espremido entre os poucos móveis e as prateleiras repletas de volumes que ocupavam toda extensão da sala.

Fez as primeiras fotos, gastando pontas de filme em gerais e testes. Usou um rolo com detalhes do ambiente porventura úteis – pia do banheiro, cama de casal, trecho do corredor, geladeira com aspecto novo, panos no varal, quina do fogão.

O ambiente permaneceu deserto por alguns dias. Enfim o objetivo apareceu, sozinho, trazendo duas malas. Parecia sempre se vestir como na foto, calça e paletó azuis, camisa de linho bege. Tinha uma feição marcial e severa, reforçada pela pose de estufar medalhas no tronco esguio. Pálpebras caídas, os lábios apertados numa repugnância talhada a idade e solidão. Percebia-se, nos gestos pausados, na serenidade e no senso de ordem, que finava longa viagem.

As semanas transcorreram e o velho não saiu de casa e não falou ao telefone nem recebeu visitas ou correspondência. Desperto quase à hora do almoço, demorava com o jornal na cozinha e surgia mastigando para rabiscar num caderno ou ler até a alta madrugada. Compenetrado em livros e papéis antigos, gesticulando repertórios de mínimas alternativas e obedecendo às poucas divisões do relógio biológico, era acompanhar o cotidiano de um leão sereno e entediado em sua jaula estreita.

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O vingador mascarado

Duas da porra da tarde. O puta calor. Coçam as juntas. Ouvidos estalam na ginga do maxilar. As unhas crescidas, negras de pelinha melenta, rasgam e arde mais

anda caralho! Põe primeira madame vai acredita! Puta que o pariu!

Três fases. Aquela, dez segundos. As outras, meia hora cada. Tudo um forno. E o cara vestido de palhaço – foto da menininha, autorização – quem autoriza isso? O rapagão pintado, calça vermelha, suspensório, cabelo verde, umas bexigas flutuando antenas

brigado. Tô sem nada hoje. Pois é. Me pegou num mau dia, viu. Então. Zeradaço. Tscí, nem moedinha. Nadica de nada. Mas não tem. Fica pra próxima. Sei. Que chato. Tudo isso? Puta lance caro ein. Sei. É mas tá brabo. Tenho nada não. Boa sorte. A é. Que pena. Aí. Foda-se a criancinha. Caguei pra tua menininha leucêmica. Pinto na bunda dela e na tua. Que foi, gostou de mim? Tira a mão do carro!

Já saiu para cima, metendo a porta.

Agora ô palhaço, perdeu a banca? Riu – e tira esse sorriso da cara.

Não perdeu o figura no retrovisor. Puta merda, um palhaço. Soltou espuma de saliva na mancha assada, espalhou, soprou e curtiu o geladinho. Naquele inferno. Sem ver um prato há, talvez doze horas. Não, mais. Abriu. Ronca, ronca, tá que quase, é a velha peidorrêra, vamo dona, buzina ó, afundou um resmungo do passate

vai merda!

E fechou. Soco no volante, mão doendo. Ligou o ar, levando em troco vapor de escapamento, mais quente que o asfalto. Toque-toque no vidro. A foto da magrelinha, vestido azul, cabelo com tiara.

Ô meu saco.

Só uma coisa, rapaz. Eu faço parte de um grupo. Essas crianças são doentes e carentes, fique sabendo. Isso é caridade

doentes e carentes. Sei. Caridade. E ficou só olhando prá carona branca, a meia melancia borrada de suor encobrindo os lábios, uns triângulos em cima e embaixo das pálpebras. Olhos e dentes amarelos, suculentos, fazendo um desprezo. Puxa, como você é bondoso! Ajuda as criancinhas. Se veste de palhaço e pede esmola no semáforo. Grande exemplo! Tu não tem mãe não, ô arrelia?

O palhaço quietou, meio besta. Retesou contando mortos. O carro da frente buzinou três tempos e esticou umas moedas entre polegar e indicador, com os outros dedos abertos em símbolo de nojo. Ganhou uma cartela de adesivos horrorosos, deprimentes. Caridosa, em seu carrão importado. Para fora, quase à metade

aí madame, belo gesto!

E não é que a despeitada virou

por que o senhor não faz o mesmo?

Que... por o quê? Saiu, ficou em pé diante dela – não tinha fuga, nem do carro, nem da cidade. Um lulu branco, pêlos aparados em bolotas, sapateava no banco de trás. Latia parecendo corneta de bicicleta. Por que é que a senhora não avança quando abre?

Não podemos fechar o cruzamento.

A mas eu tenho obrigação de feder aqui à toa, se a dengosa não tem um objetivo na vida, só passear de quisara, ouvindo ópera com o lulu, e dando esmola presses trambiqueiros caras de pau?

Mas a velha chorou e ele ali, às vistas, naquele budum, duas filhas da puta e meia da porra da tarde, sem almoço nem café da manhã nem água nem bosta nenhuma, indo tomar esporro do distribuidor que não faz nada certo, pegar um laminado que vai estourar na mão do encarregado, que vai dar esporro e mandar de volta, pra não sair enquanto não estiver pronto, e de novo congestionamento, na mesma santa merda.

Palhaço longe, exibindo sua leucêmica a algum outro ignaro. O homem do carro de trás encarava feito malsinado. Esse tinha ferro, certeza. Tava na fuça; durão, é? olhou feio, que também poderia conter lá seus segredos mortais – porra nenhuma, mas disso só ele sabia. E com cano a gente sempre se fode. Cuspiu nas juntas, espalhou, soprou fininho, longo, acalmando. Estalou tanto os ouvidos que fez talunc no osso e doeu. A porra do laminado. E esquecera o formulário, tinha de voltar mesmo. Abriu, ficou aberto e nada. Nem no verde, nem no amarelo. A velha acelerando, louca para avançar à primeira chance, que não houve.

Lhe ocorreu alimentar a infâmia. E apertou longamente a buzina, dando umas golfadas para soar irritante, panã, panãpanã, panãpanãpanã, panãpanã, panã, e sempre tem um que gosta, começou algures monó, monómonó, e outro fãfããããã e ele relaxou, grato pela cumplicidade. Os semáfo-ros deveriam ter um sensor de buzina. Só aquela porra da-quela coceira, a passos do cruzamento glorioso, com uma bruaca retardada no meio.

Viu chegando o palhaço largo, no retrovisor oposto. Debaixo do sorriso falso havia um igual, hediondo. Contava moeda na palma. Cerveja e cocrete, isso sim, leucêmica o meu cantinflas, que ele vai ajudar menininha doente, esse filho da puta. A cara do safado. Mas tem uns que dão nojo mesmo.

Raspou, raspou não, esbarrou, deu uma séria bundada, fazendo estalar a proteção do espelho, aquela roupa cheia de botão por pouco não riscou a tinta, se é que não. Fez tchau na direção do uno embicado (para cortar a frente logo que abrisse e já fazendo antes pro outro ir se acostumando) e a mãozinha esticou uma nota, boa nota aliás, um belo dum cincão. O palhaço foi correndo, deu uma bexiga, adesi-vos, beijo vermelho marcado, olha, sujou o vidro do idiota. A criança acenando pro palhaço

ôta cacetilda mãe de deus, mas agora vai, essa velha passa nem que eu empurre.

Foi bufando em primeira e subindo a embreagem no sai-rachando, que viu o gesto do palhaço. Na calçada. Um meneio sutil, muito do disfarçado, meio de canto. Era o botão? Ele não estava apertando o botão. Inclinou-se com tamanho ímpeto que cabeceou o pára-brisa. Realmente. O botão do poste.

Não teve, não podia ter outra. Era a honra. Ludibriado e fodido, em público, agora ou nunca, desmascarar o palhaço ladrão. Pegou a trava de segurança, só a barra lustrosa, torta na ponta. Deixou o carro ligado.

O palhaço assobiava. A barra desceu em diagonal, nas clavículas – uma pelo menos partiu, nítido, galho. Foi como se ele estourasse numa gargalhada que, em vez de sair, entrava. O sorriso tinto encruou de abismo. Rolou tatu-bola.

De ferro alto e pronto, viu a foto da menininha. Pegou o plástico, pôs na testa do salafra, colando no suor branco. Mirou bem na lazarenta e enfiou a barra com gosto, em cheio. Tirou uma pasta quase marrom, peluda, escorrendo. Colou o plástico no pára-brisa da velha escandalizada, que soltou um arrrhhh! e arrancou de supetão

tá vendo como a vagabunda sabe?

Mas saiu no vermelhinho da silva xavier. Vinha uma saveiro quente, e pêi! – trinclinclim de vidro, puta esculacho. Foi então possível sair daquela bosta, ir pegar o formulário e depois o maldito laminado no distribuidor.

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Os três mamilos de Acrimônia

Museu

Alguns homens sérios se revezavam junto às grossas lanças do portão, repelindo pedestres esporádicos e guardando a calçada monótona. Sílvio parou com o convite encostado no pára-brisa. Recebeu um gesto pomposo que indicava a alameda em aclive e arrancou jogando cascalho nos implacáveis guardiões do templo sacrossanto.

Brasas passeavam sem rumo pelos carros estacionados, pequenas feridas repentinamente abertas na escuridão do jardim. Tufos de fumaça envolviam as luminárias, flagrando uns ternos idênticos que assistiam ao passeio silencioso dos faróis, irrompendo às vezes em palavrões, gargalhadas, correrias e assobios.

No entorno do extravagante chafariz, seguranças esbaforidos abriam as portas, entregavam cartões numerados e sumiam para secretas e temerárias manobras.

Ana ignorou o braço forte que surgiu à sua frente. Sem receber agradecimento ou sorriso, o homem balbuciou um seco boa noite senhor a Sílvio e endossou por rádio aos co-legas na escadaria. O casal subiu e foi encaminhado pelo corredor de querubins barrocos que dançavam nos mosaicos do átrio. Um pequeno aglomerado obstruía a entrada.

Dali surgiu Monique, a anfitriã, espantando os dentes polidos e desproporcionais sob o olhar vítreo. Aquela famosa careta de satisfação, ofuscada apenas pelo uso e talvez por um imenso topázio a pestanejar nas costelas sardentas (a pedra, forçosamente legítima, denunciava o resto).

Abriram caminho até um hall circular sem móveis. In-tensa algazarra os atordoava e emudecia. Moços da revista famosa e de colunas sociais bateram suas fotos, rabiscaram legendas, foram dispensados, e só então Monique beijou os recém-chegados nas três faces. Elencou as sumidades presentes, cujos nomes permaneceram inaudíveis, mas se desgarrou para aprovar o tempero do suflê, pois não abria mão de gerir os mínimos pormenores. Enjoy, meus darlings, enjoy!

Venceram a sala de jantar em três níveis, depois um vasto espaço calcetado, onde os convivas balançavam a drum’n’bass, e outro com divãs e acesso à copa. Ana quis resistir, mas alcançaram o quintal por uma parede envidraçada. Sílvio aspirou a brisa, aliviado, tentando não cruzar semblantes familiares. Alguma coisa líquida e perfumada (e escocesa, de preferência) lhe faltava na garganta.

Fernanda passou levando velas acesas, precisamos de luz, cera escorrendo nas mãos e indo bolinhas à grama. Contrastavam o porte resoluto, a bata com motivos astecas, os pés ossudos nas sandálias (Fêr, louca insigne, já saíra com o videomaker Drucha Arantes, que falava mal dela, mas entre os dois ninguém se arriscava a tomar partido). Precisamos de luz, foi à piscina, recuou, precisamos de luz. A assistência mostrava uma educação mal engatilhada, todos muito altos, amassados, entretidos com rodas de fumo e falsos astrônomos bolinadores.

Fêr achou Esculápio, olhos pintados à Cleópatra, filas de argolas nas orelhas, pingente unindo uma narina ao lábio superior. Davam-se muito bem, a julgar pelo abraço terno em que demoraram um minuto. Ele pegou as velas, falou algo perspicaz e ondulou, faquir cabeludo, orgulhoso domador de lunáticos, para cumprimentar Ana e Sílvio com beijos nas bocas.

Construíra para si a alcunha Mestre, que uns utilizavam e outros achavam ridícula. Morou em Londres, Tel Aviv e Bogotá. O mundo é mutante. Devemos recriar a feiúra do espectro faminto e jogá-la contra os ignaros. A realidade tecnológica, sideral e subdesenvolvida vai sucumbir ao orgasmo da indiferença. Hobsbawm previu o terror & Fukuyama é um bosta & Thomas ou Brook & Macalé atualíssimo & Zé Celso contra Sílvio Santos contra a Globo contra Glauber & a cultura brasileira é um bueiro & isso não é um narguilé. Aproximou o rosto vampiresco, espetando fundo as pupilas arreganhadas. Sorriso entendido e misterioso. As portas estão abertas. Tá em cima. Dá um toque. E virou a capa sobre si mesmo.

Ana soltou aaa-láááá! e pulou nos braços de um afro-brasileiro musculoso e afetado (exibindo ademanes femininos, como prefere o colunismo), que respondeu em uivos mais fortes. Céspedes, esse é meu artista. Manja o Céspedes?

É com imenso prazer que beijo tuas mãos de mago.

Sílvio tirou a mão melada, com licença, entrando em busca da cozinha. Mas um maître ancião interpôs rudemente o corpo. Pois não, senhor? Por aqui, senhor. Prontamente, senhor. O gelo, senhor? Claro, senhor.

Senhor, senhor. Senhor? Senhor. Esgotou a poção antes que o escravo se fosse. Tem copo alto não? Senhor.

Mais. Soda, pouquinho. Ana estendeu um canapé de abacaxi com brie e levou o Clitórenes de estimação, pansexual-niilista-delirante e em todos os outros sentidos. Mergulharam gritando na pista, o didjei percebeu de sua cabine escura e as caixas explodiram um funk. A estroboscópica metralhou rostos apertados, turbantes, miçangas, boquiabertos, gorros, camisões largos, losangos, beijos, listras.

Caviar, senhor?

Sílvio não segurou a gargalhada. Comeu. Ranço de sardinha velha. Acenou para o maître, especialista em uísques, gelos, sodas e bêbados chatos. Os garçons não davam a mínima para aqueles idiotas todos.

Esculápio trouxe uma criança de chapéu, que parecia andar com água à cintura. Maiakóvski era narcisista.

Maiakóvski era narcisista, repetiu a menina.

Porra. Sério? Os dois já não pareciam tão seguros.

A voz aguda: Mestre, fala do Huxley.

O Huxley! ele anunciou, abrindo os dedos marrons.

Sílvio aproveitou para subir ao gabinete de esculturas. Dois homens de terno e gravata conversavam grave. Suas acompanhantes tinham roupas, maquiagens, perfumes, silhuetas e trejeitos de profissionais do sexo, prendendo uma satisfação hábil. Ele entrou, não foi reconhecido, fingiu analisar a casa e deu meia volta.

Na biblioteca descobriu um clima indie sofisticado, supercool e blasé como requer a época: jeans novos desbotados, tênis sujos, jaquetas de veludo cotelê, baforadas conscientes, ginastas eróticos, pensadores urbanos, adolescentes magríssimas e cabeludas. Algumas rodeavam Monique junto ao piano, mastigando de boca fechada e tapando para falar. Entreviram-se e não houve escapatória.

Sílvio, já aqui! Deixa eu te apresentar: Sarah, Mildred, Rosinha Villas Boas, Neucy Cafiero.

O Sílvio da Aninha?

Sortuda, aquela moça.

Fisgou um gênio.

O Grande Erudito se antecipou, óculos de aros grossos e pretos, calva rósea molhada, cavanhaque tingido, blazer quadriculado com cotoveleira. Não sei se vem ao caso mas – Khnoppf ou Klimt & Munch ou Vuillard & Segantini ou Mil-let & Oiticica ou Pape ou Clark & Mallarmé ou Rosa ou Valé-ry ou Joyce.

Drucha Arantes rondava à espera de uma oportunidade, abaixo o ócio criativo escrito na camiseta sob o paletó azul. Linha costeleta-bigode-costeleta, brinco discreto. Solti ou Karajan & Tristan Tzara, Artaud ou Jarry (merdra!) & Grünewald ou Paes. Aquele da tela cortada, como chama, Fontoura? & Pignatari ou Wally & Pound ou cummings ou Agripino & o cão louco Mário Pedrosa ou o assassinato de Trotski & Krajcberg ou Tarzã ou Gropius & as sobrancelhas do Koellreutter.

Grande Erudito falou mais alto, procurando enxotar o nanico pentelho. Beuys (pedras para todo lado) & Skolimovsky ou Candeias (ou Carlão) & Abbado ou Patané ou Si-nopoli & Frieda Hempel, a melhor Susanna & a ditadura foi uma anexação & Severini ou Balla & Paul Klee ou Theo van Doesburg ou Johannes Itten & Pellegrino, Ivan, Olga, Chacrinha. Sílvio fez menção de sair correndo mas Fritz Glarner ou Max Bill & Magritte ou David (ou Madame Récamier).

Trechos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Acrimônia
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