Guilherme Scalzilli

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A nau erra sobre as águas,
castigada por um sal áspero,
ressequida pelos banhos do calor sufocante,
agonizante no infinito azul.

Alguém berra na plataforma,
um grupo corre cá embaixo,
a madeira cedendo às pisadas,
suor lhe apodrecendo as fibras.

Numa cabine, um corpo balança,
jogado pelo vai-e-vem diagonal da embarcação,
segurando uma carta e uma pistola,
o uniformne rude, gasto e impotente perante a tragédia.

As ondas caracolizam-se e rolam,
explodindo sua ardência fétida,
desinfetando o convés dos corpos
e os homens de suas almas.

Negro e esfarrapado pano
a meio pau tremula, pendente,
aos tapas de um vento seco, insistente,
turvo como o sangue ao rum, cruel.

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Pela abertura observo-te,
através da fechadura um sonho.
Em tua nudez uma alucinação,
na dança um escape maravilhoso.

Peça após peça o corpo surge,
lábios entreabertos em deleite,
quadris em movimento com a brisa,
monumento sensual onipotente.

Saia que sai aos puxões,
seio, que sei, sai também;
corpo após corpo teu corpo vem,
alva pele que sai, sai e vem.

_______________________________________________________________________ Subir

Será que o vidro pega cheiro?
E se duas luzes piscam
é porque uma se apaga
para que a outra acenda
amarela ou vermelha
vermelha e amarela
amarelavermelhamarela.

Dia nasce
outro que vem
outro que sai...

Líderes revezam-se
marionetizando-se como luzes
brincando como os dias
aparecendo
escondendo
escondendaparecendo.

Mas é sempre o mesmo dia a nascer
sempre o mesmo outro dia
a escorrer sua brandura negra
pelo vidro curvo
lente ao contrário de lente
luz
simulacro de curva
chata plana uniforme
luz ao contrário
negra brandura escorre;
forma deleite ilusória
de céu triste
ordenhado
a partir da mancha mais escura
no ventre da mãe dos dias
e da sua continuidade azeda.

Assim surge o acre espelhar da nova cor
risonha anil
parada angustiada
cansada de poesia
sonhos bebedeiras
já na ressaca de um outro
que passou sua acrimônia para este
pela superfície polida
do vidro do céu.

Assim, novas eras
nossos novos e novas
a velha e boa nova
mesmice.

Uma luta para se perceber
para se provar às luzes
que o instante mais gostoso é o exato intervalo
entre o apagar de uma
e o ascender de outra
nem que todos os nossos gozos
tenham de ser tão instantâneos.

Mas os dias são siameses
anos e décadas
são inteiros e únicos.

O certo é curtir a bebedeira
num canto qualquer de uma calçada esquecida na história.

Será que o vidro pega cheiro?
Músico barbudo
sempre barbada melodia
sem caminhos para ir
"culto aos mortos"
diria o mestre
estrangeiro por engano
pelo pasaporte trocado do show.

Ele e sua sintonia
seus níveis de vínculo
espalhados pela cabeleira de sua gente
são vítimas da inconsciência
de uma vila míope
que se vê no espelho
que vê a miragem de uma cidade próspera
rica feliz no vidro anil
melancólico e verdadeiro
dessa manhã contínua pontual.

Imagem de harmonia
mero denaveio de equilíbrio
na suposta perfeição de suas campinas
ela é ovo de serpente morta e flácida
escondida dentro da pretensão.

Pobre vila
triste imagem
triste vida...

E o vidro
quê diá o vidro?

A distância é quadro pintado
no vidro de nossa incapacidade de voar.

E o vidro
feito da areia mais pura e salina
mais homogênea e fiel
me faz pedir desculpas
ajoelhado em prantos
à minha amada
por ser às vezes com ela
como eu sou realmente.

E o vidro
que da areia véu se fez
que da areia adveio
velho feio
como ela é
vindo da veia da minha origem
mudo secamente observador
intermediário
também se faz poeta.

Vidro
meu irmão da areia!

Vidro
meu reflexo em ti
continue para sempre
sorrindo.

Trechos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
O colar da Carol tá na grama
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