Guilherme Scalzilli

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I

Olha atento sob as pálpebras grenás antes de abri-las com cuidado, estalando uma rebentação de pétalas. Preenche-se da claridade. Adquire aos poucos a consciência do calor no ambiente e deste aos pés, subindo em ondas para pulsar nas têmporas. Mexe os dedos, contorce as articulações, engatilha um espasmo glorioso. Os membros enroscam-se nos panos. Uma cãibra estica na dobra do joelho e paralisa os ossos. Espanta a fisgada com um chute no ar e senta abraçando a barriga branca. A cama range seus pregos cansados. Veios de suor acumulam nos sulcos do pescoço, nos regos da cintura e nas axilas de pelagem ouriçada. Coça as pintas nas costas, indagando-se a origem de tamanha luminosidade, e vê os janelões arreganhados, preenchidos de anil plúmbeo, anunciando um ainda.

Ou um já? O relógio pisca qualquer número. Muito quente para alvorada. Fedido de escapamento, o mundo corrompido.

No fundo do silêncio carregado, uma insistência belisca três notas.

Salta da cama e cambaleia ao banheiro, embalado pela ânsia. Apenas baba se alonga dos lábios espremidos. O estômago grunhe-lhe carências difusas. Urina sobre uma pasta negra, que evaporou no abismo da louça e não se mexe com o jato. Tenta abrir a torneira do chuveiro, mas já está aberta e vira e vira ao começo. Desenha meia-volta de soldado, prendendo as imagens tontas onde o toque possa confirmá-las. O céu despeja uma singular emanação amarela que começa a tingir as montanhas de cobertores indistintos. Tropeça pelas trilhas sinuosas, reluta um pouco para se lançar à porta aberta. Puxa as paredes do corredor. Papel higiênico sai do rolo no banheiro e indica um caminho, ondulando nas coisas, até a sala. Cacos e toalhas, meias e revistas, cuecas e gravatas, o apartamento ainda vive, de entranhas expostas, enorme viveiro de coisas entrelaçadas no repouso que sucede as orgias; bafeja um hálito morno, parece relaxar e subitamente geme outra reação desesperada.

Chora o aparelho prateado no meio do caos, piscando mecanismos entupidos. Não precisa ouvi-los para comprovar que acumularam enigmas desimportantes.

Sai à sacada coçando a cara e descobre uma barba esquisita. O espelho possível é esse todo ruidoso que acaba de abrir à frente. Sua fisionomia imita o entrelaçamento das rugas asfaltadas que o espiam debaixo. O caminho iluminado em volta da lagoa, o parque incrustado na cordilheira de terraços e antenas, as avenidas girando, o reflexo escurece e transforma-se em minutos num leito fofo, cheio de galáxias brancas e amarelas, olhinhos vermelhos e verdes flutuando aos pares.

A porta do vizinho ronca. Uma senhora sai distraída, fita-o chocada e foge para dentro. É porque está pelado, conclui. As plantas, algas secas, escorrem nos vasos. A gaiola vazia guarda uma nuvem de pequeninas moscas. Fuligem esvoaça na mesinha de vidro e no chão há um copo tombado, não caído, porque intacto. As linhas dos ladrilhos inventam um quadriculado encardido que lhes confere volume. O cinzeiro está entupido de pedaços carbonizados. Pinça com os dedos um recorte de sorriso, que solta de cima. O papel luzidio brinca de oscilar, escapole perto do amontoado de roupas, toma impulso para guinar na brisa e adeja pelo vão da grade, mergulhando do sétimo andar.

O telefone insiste.

– Eduardo? Alô. Alô. Eduardo. Alô?

Emudece até desligarem. Coloca na base e toca novamente.

– Eduardo, é você, alô! Tá tudo bem? Liga pro escritório, por favor. Alô. Puta que o par...

Pousa o aparelho com delicadeza excessiva, sem lembrar se está arrependido ou amedrontado, perguntando-se por que trata as coisas com carinho depois de quebrá-las. Pelo menos dessa vez o estrépito cessa. O lustre esquisito, que diferente, era assim lá em cima? A gente passa nem.. a cortina... cadê a cortina? Era ainda a época do. As estampas floridas, quanto tempo aquilo? Ela quem? Engraçado. Tem certeza de que saberia, se realmente necessário. Absoluta. Mas pode prescindir desse dom e está decidido a fazê-lo indefinidamente. Agora parece mais importante completar os passos em seqüência, desgirando as paredes para alcançar a sala de televisão, com o arquivo de fitas e devedês, os almofadões e cartazes. Porque o cheiro é insuportável, mesmo para ele, recua os calcanhares pesados.

A geladeira, um armário poeirento, expõe mostarda, leite duro, potes forrados de bolhas brancas, maionese parda, um troço contorcido no pires, garrafas vazias e verduras que viraram gosma. Testa a torneira da pia para corroborar a água nenhuma há muito. Só se quisesse lavar pedaços de louça e de copos. O forno boceja, a porta amassada, pênsil pelo suporte quebrado, a válvula aberta porém inodora. Descansa sobre uma pilha de jornais. Usaria alguma das muitas cadeiras, mas elas são das roupas e de vasilhames perigosos. Na mesa jaz uma torradeira moída a murros, as lascas de plástico tingidas de sangue, os filetes de resistência desmembrados como arames, e também isso ele quer esquecer. Busca uma reflexão distante, cofiando os pêlos desconhecidos. As luzes sempiternas no teto, embora pisquem de exaustão, garantem uma vívida realidade a tudo. O resto, pelas venezianas, é um breu melodioso. Planta os pés com força e constata o piso ainda quente do dia. Uma azia ruidosa borbulha dentro das banhas ocas.

Espia pela janela o vácuo mormacento. Cospe catarro nos abismos e espera um barulho que não chega. Cambaleia em torno de uma dúvida importante, apalpa o tronco flácido, as coxas e as nádegas, sonda as roupas sem tocá-las, sobrevoa os montes, um desconhecido magnetismo o guia pelos obstáculos. Flui enviesado nas poucas brechas em carpete de madeira e papéis inofensivos, não sem esbarrar na fetidez do cômodo dos filmes, guardando o repouso transcendente e o sexo esporádico, ela por cima no pufe lilás, acenando os seios enormes, de bicos esparramados. Vence o corredor escuro e é sugado pelo escritório. No meio de um livro, a carteira. Num gesto simples, que o impregnou com precisão ritual, puxa um livro, arranca páginas aleatórias, rasga pequenos pedaços e joga-os no canto da parede, onde a lixeira desaparecida passou seus anos. Agora resta ali uma salada de trechos impressos e filtros de cigarro. Apanha a calça em posição favorável, na prateleira de livros, à altura da cabeça, e perde segundos surdos, imitando um cavalo adestrado, até conseguir vesti-la. Sai decidido, sem a carteira.

Uma camisa, repete, uma camisa bem bonita, camisa bem bonita, para a busca não perder o sentido. Mas nenhuma está fácil, dispensando abaixar ou escavar, nem no sofá, nem nos encostos das poltronas. Naquele buraco insuportável não entrará novamente. Em cima do microondas há uma camisa, mas manchada de sangue e de uma graxa biliar que ainda recende. Certamente encontrará uma camisa bem bonita em algum monte. Telefone, telefone, telefone, telefone, telefone, apito, silêncio. Telefone, telefone, telef...

– Alô? Ed... al... alô, doutor Eduardo? – o choramingo feminino vai sumindo. – Atende e fica mud...

Curioso devolver o gancho com tanta cerimônia. Camisa bonitinha. No quarto, só a teresa de lençol retorcido sobre o colchão em carne viva. Uma branca, uma branca qualquer. Teve sorte de pensar no armário. Paletó. Faz menção de enfiar a barra na cintura, mas deixa-a pela metade quando flagra, por acaso, um pé, depois outro, de sapato brilhante. Sem meia refresca. Sapato bom. Camisa bonitinha e sapato bom, com paletó para atiçar o calor.

Livro? Quase só restaram as capas. Alguns sobraram intactos, mas em prateleiras altas, e ele escolhe um volume mais acessível, embora incompleto, da mesa de jantar. Talvez tenha deslembrado também como ler, não na captação das letras em sons, dos sons em palavras e destas em sentidos, mas no respeito ao encadeamento das idéias, na assunção da relevância do discurso. Isso deve ser fácil de sanar. Numa bolsa de náilon enfia o exemplar, o ventilador de linhas modernas (porque está ali, inteiro e fácil, e sempre gostou dele) e o telefone – não sabe se o fio soltou da parede ou do aparelho. Puxa o zíper com exatidão e firmeza, pois é, orgulhoso, homem dotado da capacidade de puxar zíperes.

Saltita os escombros, abre a porta e espera o elevador, sem notar que o observam de todos os lados. Toca o botão e arrisca uma furtiva olhadela no espelho, mas retorna assustado. A porta abre súbita e ruidosamente. Pensou que ia demorar uma eternidade e já está ao alcance da vida, obrigado a sair e transpor a voz do porteiro. Não o vê. Aperta o queixo no peito e concentra-se nos passos curtos que apressa para a liberdade.

A opressão nebulosa esvai na calçada. Segue as luzes, na contramão dos carros. Margeia uma longa avenida de mão dupla e transversais estreitas e movimentadas. O bom da bolsa é a alça, larga e confortável. Sabe os pesos, consegue diferenciar volumes, discerne altivamente toda a multiplicidade de sentidos. A campainha do telefone parece ainda pulsar nesse rés de memória; porém, como um instinto livra-o do ônibus rasante, cogita serem apenas as buzinas que tentavam despertá-lo.

Encontra um bar sem mesas e pára no degrau da entrada. O balconista fixa-se numa espreita, preparado para bote: algo o esclarece que não será bem-vindo. Ergue o braço num agradecimento sem platéia e volta à rua. Anda fácil, desafiando o ritmo decidido e frenético dos rostos indiferentes, tateando a cadência de um boneco levado por linhas invisíveis. Línguas de lata rugosa estraçalham ao lado. Roncos sérios conversam. Decide que basta continuar evoluindo, com respeito e zelo, e algo sucederá. Sobe ao final da quadra e estanca, hipnotizado pela multidão de carros em filas várias, bramindo entre as mínimas frestas que podem ocupar. Quando os corpos se põem a caminho, aproveita-os, saboreando o delírio lento do fluxo, palpitando com a pessoinha verde. Chega ao outro lado certo de que precisa voltar (e volta, mas o estranhamento continua). Tanto faz. Envereda pelas artérias de um monstro que o ignora. Só essas engrenagens absortas o ameaçam.

Está seguro enquanto permanece entre uma cabine e a esquina irregular, de queixo alto, biruta barriguda e molhada de suor, acusando a dança de tórax e ventres que o contornam e murmuram pedaços de licenças e grunhidos pigarreados, chamando atenção nenhuma. Sorve este longo fascínio, de bicho dentro do aquário, e não retribui olhar algum, suficiente em si. Querem que saia de suas vistas, que volte ao útero envergonhado para ruminar vagamente até dormir, e de preferência dormir muito, o máximo possível. Fora de combate. Soubessem como é inofensivo, acolhê-lo-iam ali mesmo, de cabeçorra estúpida, recebendo uma verdade emanada das coisas brutas, lutando contra o magnésio leitoso, a fumaça preta, a borracha trincando, o desespero da vida inteira.

Mais do que esperar a contemplação distender ou sugar sua palpabilidade embaladora, necessita libertá-la de si próprio, mirando os organismos túmidos, assimilando pára-choques, capôs, vitrines, músicas, avisos, rostos, letras, o gigantismo pitoresco que acumula de fora. Deve esgotar-se de sensações inéditas, desta curiosidade apaixonada, surpresa por se entender um mundo vazio dentro de outro repleto de vazios incompreensíveis. Efervesce num transe agressivo, espera de sinal contrário, que expõe aos segredos irrelevantes do trânsito a simplicidade da catarse sem revelações, uma queda para o redor, explosão paulatina e silente, expiração aliviada na totalidade malsã, resumido a apenas veículo, trunfo, anúncio.

Quando se recompõe, imerso no bafo fresco, o espetáculo findou. Está abandonado. Por minutos implora que a sensação retorne, mas a fotografia é ainda esta da avenida, quase perfeita, um repouso de prédios em céu ilimitado. Talvez anseie, por temor de nascituro, alcançar aquele recorte de sorriso, um canto de lábio maquiado, a frincha insinuante da ruga, que viu, no átimo da ojeriza, perder-se pela imensidão. Está prestes a religar as gargalhadas familiares na sala de jantar, admitir seu desespero, ouvir conselhos insignificantes e segurar os olhos vivos pelas pupilas, antes que tudo desapareça novamente, mas.

O contraste de se notar parado, ombros tesos, à beira do meio-fio, é a cura de uma aflição pungente que esteve repousando ali dentro e voltará sempre que o fascínio esmoreça.

Respira fundo, esgarçando os pulmões ociosos, fixo nas pontas desatadas do asfalto, sob um corredor de luzes que se encontram acima e abaixo. Puxa uns passos contra o vento e deixa secarem as bochechas inflamadas. Os desníveis da calçada, mais estreita, impulsionam-no aos saltos. Não pode denunciar tantas vontades, precisa descobrir uma deriva de contemplação e refúgio, importante é seguir sempre, importante seguir com certeza contra o vento pútrido. O mundo saliente e estranho seduz sua fome com dedos ardilosos, intumescendo-lhe as baterias.

Pisa desavisadamente na sarjeta, cambaleia e retorna à terra firme. Muito perto, carros singram rápidos e escoam para um abismo alaranjado. Eis certamente outro lugar, atalho para novas armadilhas, e ele não seguirá pelo túnel. Margeia a amurada ouvindo gritos e motores nas profundezas mornas. As juntas ardem, os músculos querem ceder, a visão tonteia. Ofegante, senta-se num ponto de ônibus deserto. A vigília resignada entorpece, nublando-se de faróis lentos e alaridos remotos. O tronco inclina para apoiar na pilastra, o quadril escorrega de pernas dobradas. A mochila cai, mas ele a salva da correnteza imaginária para ganhar um travesseiro. Sente oscilações de maré, quase perdido. Num último capricho desapercebido, ajeita o paletó em torno da barriga, a calça nos calcanhares e a gola debaixo da barba. Aconchega-se de joelhos no peito e sua atenção oscila, abanando lentamente, esmorecendo num pouso entregue.

Trechos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
Crisálida
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