Fluxo

O mar rala sua barba branca
no pescoço suado da praia;
caranguejo salta, arrepio,
e dois grandes gatos malhados
suspendem tensão de suspiro
- quase perto, presencio mudo
como anjo desnecessário.

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Cidade fantasma

Os senhores que ora proseiam,
meu nobre colega,
não têm a tua elegância.

Nem conhecem a ignorância,
não desconhecer,
mas a de ser ignorar-se.

A ser da incompletude.

Se o verdadeiro solitário
é aquele que fala sozinho
mesmo quando não está só,

esses que ora proseiam
imaginam que escrevo
sem eles nem por perto.

Mal podem, os senhores que proseiam,
entretidos que estão com seus tédios,
determinar se é a janela do prédio
ou a deles, seres-edifícios,
que os conduz a apartamentos vazios.

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Rambô

Sem deus
na estrada errada

Sem tez
tão maltratada
a cara

Empurra a pena
do império a tapa
a bravata

Entorta a via
velho profeta

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If not for you

para Fábio Sampaio

Como os abjetos planáveis que tentamos apelidar
sacrificam-se as minhocas.
Mesmo as minhocas que tentam chegar lá embaixo,
na esquina da Lundu
c’a Marechal Deodoro.

Crianças índias que se vêem na tevê e senhores

bem andrajados

clamam-me mamar nos enes lindos do ritmo,
em pleno idylian que podemos
e iremos
tijogar n’auras menos prezadas.

Deito rosas rubras de ternura e as ondas em
purram, levam, empur
ram, levam, empurrão,
levam, levam, levadas!

De que lado olhar: de dentro do trem?
: de mim?
: de um livro ou das barbas do.?
: e para rir de quem?

(acho que foi largado meio sem mãe
numa rodoviária do Wyoming.
Vendeu cigarros dois anos e meio,
nada vendeu até mil, novescentos e noventa e dois,
ano do senhor,
por estar casado;
vendeu os móveis e as bijuterias dela - atriz de ?.
Vendeu maconha no banheiro do Morumbi
até tudo começar a desabar; veio com o pai,
poeta solitário e mal informado
que ao menos ensinou-o a voltar.
E vendeu apenas saquinhos de vômito para sacristias
onde atualmente é representante da fábrica Circo.
Hoje vende fé).

Um pequeno exemplar da minha autobiografia
boiava à revelia no sonho d’ônibus.
Contei coisas que li,
desli e duvidei. Berrar não!
Não.
As forças não conseguem mais gritar não!
Sonhoro demais.
Cansa a vista, embaralha os pensamentos inocentes
(e dá pum).

Sem mais perguntas, senhor juiz americano.
E sem mais reclamações.

Não saio mais sóbrio
começo com mais dó.

Agora chega.
Conseguiram ver alguma coisa?

Bom!
Passado,
pulo pro tédio antes que pensem.

Certo, correto? - tento dublar as espumas
que saem das pedras
como gargalhadas barbadas
na moita.

Não me esperam sobre alguma delas
e, apesar desta estranha mania,
sento-lhes o que resta
de manha.
Solidã. Solidona.
À má Nhã!

Lembra, maninha?

“Que fizeram dos prédios demolidos?”

O mar, por sua vez,
detesta tanta juventude.

E eu odeio tanta comiseração.

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Ofício

agricultores, cabeleireiros, ebanistas, médicos
vidraceiros, conformistas, prostitutas, escultores
ascensoristas, tecelãs, ensacadores, barbeiros
alfaiates, fiadores, bicheiros, linotipistas
emplacadores, moleiros, parasitas, mecânicos
seleiros, mercantilistas, choferes, cortadores
dentistas, sacerdotes, historiadores, sapateiros
arquitetos, pescadores, metaleiros, umbandistas
pensadores, marinheiros, urbanistas, cozinheiras
caldeireiros, modistas, químicos, reprodutores
psicanalistas, comerciantes, pintores, cocheiros
padres, compositores, ferreiros, telegrafistas
colonizadores, padeiros, alpinistas, cineastas
jardineiros, maquinistas, fotógrafos, professores
periodistas, advogados, mercadores, açougueiros
astronautas, detratores, tanoeiros, jornalistas
administradores, relojoeiros, diaristas, poetas
pedreiros, trocistas, empregados, ilustradores
romancistas, bordadeiras, saqueadores, carpinteiros
tipógrafos, educadores, mineiros, varejistas
supervisores, boiadeiros, massagistas, domésticas
funileiros, comunistas, mágicos, contadores
balconistas, músicos, descobridores, engenheiros
atletas, domadores, chapeleiros, recepcionistas
e outros serviços em geral

Trechos
© 2008 Guilherme Scalzilli
 
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