Guilherme Scalzilli

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Criação depende dos estímulos

Guilherme Scalzilli fala sobre Crisálida, romance que lançou pela Casa Amarela

João Nunes

De uma geração anterior à dos jovens escritores de Campinas, com vários livros publicados, Guilherme Scalzilli, de 36 anos, formado em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acaba de lançar o romance "Crisálida" (Casa Amarela, www.carosamigos.com.br, R$ 33,90). Seus outros livros são "Acrimônia" (contos, de 2002), "Pantomima" (poemas, de 1999), "A Colina da Providência" (contos, 1996) e "O Colar da Carol tá na Grama" (poemas, 1992). Nascido em São José dos Campos, ele se mudou para Campinas há mais de 30 anos. Nesta entrevista ao Caderno C, ele fala do livro e do trabalho como escritor.

Caderno C – Quanto tempo você se dedicou a "Crisálida"?

Guilherme Scalzilli – É difícil precisar o período necessário para a criação de um livro. Passo pelo menos dois anos estudando (basicamente história e teoria literária), sem pensar numa nova publicação. Depois, dedico-me a uma preparação mais conscientemente voltada para a próxima obra. Passo cerca de um ano lendo apenas ficção, selecionando estímulos ou inspirações. Os rabiscos começam aí. Em determinado momento, estipulo uma sistemática e a partir de então só escrevo. Para o “Crisálida” foram dois anos ininterruptos, quatro a seis horas por dia. Meus livros anteriores foram “edições de autor”, processo exaustivo e oneroso, que demanda longas pausas entre os lançamentos. Mas minha própria sistemática de trabalho acabou se adequando a essas demoras.

A história se passa numa cidade não identificada. Mas é difícil não imaginar a Unicamp nas ações do campus universitário.

Preocupei-me em não situar geograficamente a ação, pois seria irrelevante para o enredo. Mas, principalmente, porque a falta de identificação dos personagens com o ambiente que os rodeia é sintoma (e talvez uma das causas) de sua incompletude existencial. Quanto ao campus retratado, é uma somatória de lugares e grupos humanos que conheci, selecionados para adequar-se às necessidades narrativas. A Unicamp está lá, com certeza.

Como uniu as referências pop com uma literatura densa e reflexiva?

Não é possível retratar seres urbanos do século XXI sem levar em consideração o imenso cabedal de estímulos audiovisuais a que estão expostos desde a tenra infância. As gerações nascidas desde os anos 1960 foram forjadas intelectual e emocionalmente por filmes norte-americanos, pelo rock, pelo mercado do entretenimento em geral. A própria saturação de referências midiáticas é componente importantíssimo da crise de identidade que os personagens atravessam.

De onde veio o interesse pela literatura?

A experiência acadêmica foi fundamental para a maturação de minhas aspirações artísticas. Graças a professores como Berta Waldman e Jorge Coli, superei um diletantismo juvenil quase irresponsável e passei a enfrentar o ofício criativo com um rigor crítico que jamais assimilaria de outra forma.

Suas personagens estão mergulhadas num cotidiano sem perspectivas. É
assim que você enxerga o mundo?

Sou ao mesmo tempo cético e otimista. Não queria que o livro terminasse com uma constatação absolutamente negativa sobre a condição humana. Por isso procurei um desfecho aberto a interpretações. E o título é auto-explicativo. Quanto aos temas permanentes (amizade, falta de perspectivas, amadurecimento), concordo que há certa desolação.

Qual a importância do cinema na sua literatura?

O cinema é minha grande paixão, desde sempre. Nunca deixei de me dedicar a ele: fui diretor da Cinemateca Campineira, cometi alguns curtas, tenho um programa de rádio sobre trilhas sonoras. Assisto a um filme por dia, regularmente. Todas as minhas histórias nascem filmes, e gradativamente se transmutam para as restrições e liberdades específicas da literatura. No entanto, evito recorrer demais à apologia cinematográfica. No caso de “Crisálida”, o personagem Anselmo permitiu-me enveredar por esse universo, mas não foi um ponto de partida.

Algumas comparações da sua escrita com grandes nomes da literatura (Roberto Piva, Henry Miller) não assusta?

Assustaria, se as comparações provocassem em mim a necessidade de satisfazê-las. Embora me sinta lisonjeado, discordo honestamente da maioria delas. Sou autocrítico o suficiente.

Jornal Correio Popular, de Campinas (SP). 22 de julho de 2007, capa do Caderno C

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