Guilherme Scalzilli

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Com o livro de contos A Colina da Providência, o jovem escritor Guilherme Scalzilli desperta atenção da crítica especializada

Marina Silva

Com apenas 19 anos, Guilherme Scalzilli lançava seu primeiro livro de poesias: O Colar da Carol tá na grama. Uma obra da literatura infanto-juvenil que marcava sua tímida entrada no mercado editorial.

Agora, aos 26 anos, ele surpreende o meio literário lançando sua primeira obra de contos, A Colina da Providência (edição do autor), volume que chamou a atenção de intelectuais e críticos. A exemplo de Leo Gilson Ribeiro, crítico literário há 40 anos, formado em Literatura Comparada por duas universidades alemãs, a de Hamburgo e a de Heidelberg.

Leo, que lançou a escritora Hilda Hilst, ficou impressionado com o talento do estreante escritor. Na sua opinião, Guilherme demonstra, nos doze contos que compõem A Colina da Providência, afinidade com o mundo soturno de Kafka, de Dalton Trevisan, João Antônio e Beckett.

O crítico ainda alinha o jovem escritor na galeria de nomes como Hilda Hilst, Ricardo Guilherme Dicke, Jamil Snege, Wilson Bueno e Vicente Cecim. Esses, de acordo com Leo, são os expoentes da literatura moderna atual brasileira.

Conhecendo a dificuldade desses autores para divulgar seu trabalho, Leo condena a desestruturação editorial no País, o descaso com os escritores daqui. “Qualquer livrinho de auto-ajuda americano vende bastante, é um processo contínuo para emburrecer o povo”, lamenta.

Guilherme Scalzilli recebeu a crítica de Leo Gilson com entusiasmo e muito susto. “Ele foi muito generoso comigo”, declara o escritor que está há dez anos batalhando para divulgar suas criações.

O escritor admite a referência kafkaniana apontada por Leo. É inegável, conforme disse, e está latente no conto Velho, primeiro do livro A Colina da Providência. “Não que eu pense nisso ao escrever, mas Kafka faz parte de um universo que eu admiro”. Além de Kafka, Guilherme gosta muito da linguagem de Machado de Assis. E muitos outros como Garcia Marquez e João Cabral de Melo Neto. Uma referência forte e absoluta no seu trabalho é Aldir Blanc.

“Muito mais que os outros”, garante. Apesar de citar esses nomes, o escritor se diz desinformado. “Sou meio louco, não tenho uma escola específica”.

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Cinema

O que mais impressionou Guilherme na crítica de Leo Gilson foi o fato dele analisar o conto A Colina da Providência – mesmo título do livro – sob a perspectiva cinematográfica. Segundo Leo Gilson, o conto “tem o surrealismo aparentado com os filmes extraordinários do grande cineasta espanhol, Buñuel”.

Guilherme garante que foi a primeira vez que alguém reconheceu a referência do cinema no seu trabalho. “Tinha vontade de fazer cinema. Cheguei até a fazer um curso na área”. Mas perdendo a ilusão, Guilherme acabou embarcando mesmo na literatura.

O livro

Em A Colina da Providência, uma coletânea de contos, Guilherme coloca um pouco de cada coisa. Nos três maiores – Diário de Claudius, A Colina da Providência e Bêbado – a linguagem é um pouco mais densa Em outros, Guilherme faz crônicas com textos mais leves e cômicos. “Cada conto tem uma exigência”.

Em Bêbado, conto preferido de Guilherme, ele faz invenções com a língua portuguesa, subvertendo as regras ortográficas, desmistificando a pontuação. “A gente quer transformar o ato de ler numa coisa muito interessante, por isso achei legal fazer uma brincadeira conseqÜente”. Colina... ainda tem Uma vermelha, Cocô, Bolha, Mimo, Ela, O Louco, Cincos e Natal. Os interessados em adquirir o livro podem ligar para 253-1732, com o próprio autor.

Cinema é verdadeira paixão do escritor

Guilherme Scalzilli, a nova promessa literária, nasceu em São José dos Campos e mora em Campinas desde muito cedo. Formado em História pela Unicamp, tem verdadeira adoração pelas artes desde criança. O cinema é sua maior paixão. Mas a literatura foi quem fisgou Guilherme, até pela aproximação com seu trabalho.

Há um ano, junto com o sócio Alessandro Baumgartner, montou o selo literário Corsário Comunicações, que produz o jornal O Furo e está para lançar a revista Em Pauta. Guilherme chegou a fazer um curso de cinema e é também sócio-proprietário do Sarau – Bar e Espaço Cultural (Rua Antônio da Costa Carvalho, 281, Cambuí, fone: 254-2135).

O escritor não divulga muito o seu trabalho, mas está mudando de opinião depois que foi elogiado pelo crítico Leo Gilson Ribeiro. Ele pretende voltar a insistir com o livro A Colina da Providência – no qual investiu R$ 5 mil – nas lojas de Campinas. “A gente não tem muito respaldo”, reclamou. Ainda neste ano, o escritor pode lançar outro de poemas. “Tenho um grande volume de poemas inéditos”, conta.

Aliás, Guilherme tem mais de mil páginas escritas na gaveta, aguardando a edição. “São coisas que escrevi em prosa, ficção, peça de teatro e até roteiro de filme”.

Diário do Povo, de Campinas (SP). 21 de setembro de 1997, capa do caderno Plural

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