Poesia é tensão
Pedro J. Bondaczuk
“A função do poeta é dar às palavras o seu valor harmônico e criar de novo, com o auxílio delas, associando-as, substituindo-as, surpreendendo-as em posições inéditas, o ar de mistério de que originariamente se cercavam”. Essas observações foram feitas, há mais de cinqüenta anos, por André Maurois, no livro “Vozes da França”, a propósito de Paul Valéry. São, no entanto, mais do que válidas e atuais nos dias que correm. Trata-se de uma das raras (e mais lúcidas) definições sobre o papel desse tipo de escritor, um tanto confuso na cabeça dos leigos.
Como toda a arte, a poesia acompanhou os novos tempos e as mudanças de comportamento das pessoas, influenciadas pelo tempo e pelo meio em que vivem. Esta é uma época de angústias, de incertezas, de perigos de toda sorte face à violência urbana que campeia por aí e, sobretudo (e paradoxalmente diante da superpopulação mundial), de solidão. A perplexidade substitui o encantamento. A mulher deixou de ser aquela figura frágil e diáfana, romantizada pelos poetas de um passado não muito remoto. E os padrões de beleza, válidos no século XIX e boa parte do século XX, por exemplo, hoje soam como coisas pueris e piegas.
Regras artificiais, que engessavam a criatividade e faziam de um poema mero jogo de palavras (muitas colocadas até fora do contexto, no afã de se encontrar uma rima) foram abolidas, na prática. Nada impede que sejam usadas. Poucos, no entanto, se dispõem a fazê-lo.Temem, evidentemente (e com razão), o ridículo. Os padrões de beleza mudaram, estão mudando e certamente vão mudar ainda muito mais. Hoje, associam-se à tensão, à dramaticidade, ao medo e à perplexidade que nos dominam. Até não faz muito, a poesia era feita para ser “entendida”. Hoje, como em outras artes (como pintura, escultura, música, etc), destina-se a ser “sentida”.
Recebi, recentemente, pelo correio, um livro de poemas, de produção independente e muito bem cuidada, de autoria de Guilherme Scalzilli, intitulado “Pantomima”. Confesso que até então não conhecia o autor, sequer de referência. Foi até útil essa minha ignorância, pois pude fazer uma leitura (e principalmente uma avaliação dos textos) descomprometida, sem a influência de qualquer fator subjetivo, que pudesse distorcer a análise, como amizade, fama ou admiração pessoal, por exemplo.
Passeando, página por página, poema por poema, atento a cada detalhe, fui me surpreendendo (positivamente) a cada estrofe ou verso que lia. A poesia de Scalzilli não fica nada a dever, em profundidade, contundência e criatividade, à de nenhum outro poeta que esteja em evidência. É dura, é áspera, é tensa. Mas reflete, com precisão, o mundo em que vivemos: neurótico e neurotizante, que tenta nos reduzir a números estatísticos ou a potenciais consumidores, eleitores, clientes, pacientes ou seja lá ao que for, em um processo acelerado (e talvez sequer intencional) de “desumanização do homem”. Sua temática e sua técnica são apropriadas portanto para a realidade atual.
Scalzilli joga, com precisão, bom gosto e muita inteligência, com as palavras. É um livro para ser lido com a mente aberta, o espírito desarmado e, sobretudo, atento, pois apela à inteligência (no sentido lato do termo, ou seja, a “capacidade de entender”), embora sem deixar de atingir a sensibilidade. Exemplo é este poema “Raízes de rima”, tomado aleatoriamente: “Já ardem lacerantes, fundas azias,/cólera azeda, acre o cavernoso vento,/úlcera abrasiva, a paz da poesia:/zinabre acerbo, estalante brotamento,/aftas burlescas salivam antiungüentos.//Contorce flagrante um louco esquecido,/vírgula arfada, falqueando o fetal medo./Germina torpe o poema do límpido:/jogral pulsante, indefinível enredo,/seiva que degenera ante atrasos cedos.//Quem então nos suprirá o vácuo quê,/se luzes metódicas maculam de cima?/Somos árvores de fartos frutos a ver/as falhas, santas lascas que o caule sublima:/chama funda, reféns do terreno reter,/em poços, por sólidas raízes de rima”.
Note-se, além da fartura e da originalidade das metáforas, o perito domínio vocabular do poeta. A riqueza de expressões e a abundância de neologismos, termos emprestados principalmente da língua inglesa, como subprodutos da era tecnológica, em especial da informática, e que aos poucos se incorporam ao nosso linguajar cotidiano, revelam um artista de muita cultura. E Paul Valéry já observava, com presciência e sabedoria, ainda no início do século XX: “Não se faz um poema com idéias nem co sentimentos; faz-se um poema com palavras”. Ao que poderíamos emendar com a observação da norte-americana Edith Sitwell: “Como Moisés, o poeta vê Deus na sarça ardente, quando o olho físico, míope ou mal aberto, só vê um jardineiro queimando folhas”. O livro “Pantomima”, de Guilherme Scalzilli, é, sem dúvida, um magnífico banquete para a nossa inteligência e sensibilidade. E mais não digo porque acabou o espaço desta crônica...
Pedro J. Bondaczuk é jornalista e escritor, autor dos livros “Por uma nova utopia”, “O País de luz” e “Cronos e Narciso”
Folha do Taquaral, de Campinas (SP). 12 de maio de 2000, página 2