Providência Tcheca
Uma edição de autor, o pouco festejo da mídia, o jogo de imagens, os cortes de narrativa e a influência do tcheco Franz Kafka no novo livro do paulista Guilherme Scalzilli
Felipe Araújo – Da Editoria do Sábado
Nada daquela posição franciscana de sobrevalorizar uma obra como A Colina da Providência – ou poupar-lhe uma reflexão mais exigente – apenas por se tratar de um daqueles livros praticamente ignorados por todas as mídias quando de seu lançamento. A despeito de não estar a reboque de nenhuma insígnia editorial nem mesmo mediana e de, mesmo assim, ter bancado uma primorosa edição de seu livro, Guilherme Scalzilli é um daqueles raros casos em que o autor está acima desses fatores e que pode ser analisado, e festejado (ainda bem), por si só.
Em rápido contato com o autor, fez-se possível o acesso ao livro de Scalzilli (o que ainda pode ser feito através do endereço Rua Coronel Quirino, 1299 – CEP 13025-002, Campinas, SP). Mais do que as reminiscências de uma conversa bem-humorada, ao pegar o exemplar de A Colina da Providência vieram as lembranças da pessoa atordoada com o assédio do jornalista do Ceará – “pôxa, como é que você veio me achar aqui, rapaz?” – e que ainda não tinha tomado conhecimento da elogiosa crítica que Leo Gilson Ribeiro, rigoroso crítico literário da revista Caros Amigos, escrevera na semana anterior.
À medida que a leitura ia acontecendo, uma gratificadora constatação: Ribeiro não exagerou tanto quando incluiu Scalzilli na galeria dos “mais profundos e perfeitos escritores do Brasil de hoje”, e nem mesmo quando lhe comparou a ninguém menos do que Kafka. Inteligente e sutil, o escritor paulista constrói um clima inebriante e soturno ao longo dos doze contos de A Colina da Providência que muito lembra a densa atmosfera do escritor tcheco. Com a diferença de que Scalzilli não é um misantropo tão extremado quando o era Kafka.
Logo no primeiro conto, Velho, a influência do autor de A Metamorfose já é percebida. Solene, um jovem boêmio que acorda de uma de suas homéricas noitadas transfigurado num caquético senhor de terceira idade, é a paródia Scalzilliana de Gregor Samsa – personagem kafkiano que se transforma do dia para a noite num hediondo inseto (e que alguém, não Kafka, teimou em dizer que era uma barata).
“Sulco a sulco, nos desenhos assimétricos que se espalham, no semblante perdido e sóbrio, nos olhos cansados, Solene transformara-se num velho septuagenário”. Não bastasse a “metamorfose”, Solene ainda continua envelhecendo, dia após dia, qual se passassem anos. Tanto que, “Numa tarde cinzenta de dezembro, ... expirou com oitenta e seis anos, vinte e três após ter nascido”.
Melhor carta de apresentação, difícil. Nos contos seguintes, Scalzilli vai perfilando uma série de personagens e situações que, mais do que pitorescas metáforas da condição humana – o que também é geralmente associado a Kafka, numa perspectiva limítrofe de sua obra – remetem o leitor a um jogo de imagens e cortes de narrativa que muito se aproximam da estrutura de outro exímio contista conterrâneo nosso, por que não, Juarez Barroso.
Também pudera. Como o próprio Scalzilli conta, em suas influências – além de Kafka – estão também Aldir Blanc e o cinema (o conto que dá título ao livro, inclusive, é dedicado a Luis Buñuel). O que é evidenciado em Bêbado e no hilário Cocô. “Luz acesa. Rápida faísca fluorescente para antever as paredes coloridas, três ou quatro vasos de planta, um banquinho, a pia, sabonete, parede, chão, parede, teto, luz acesa, parede, vaso com flor, parede, vaso com flor, pia, sabonete, toalhinha, parede, chão! Um lavabo! Uma porra dum lavabo! Lavabo! Lavabo! Lavabo. Do tipo sem privada, que fique bem claro. Arrepio. Desespero”.
Ou ainda como em Diário de Claudius. “Choviam flamejantes os computadores, suas mensagens piscantes, radares, as vozes latentes que gritavam desesperadas, alarmes, sirenes, o ruído sumiu. Era então eu e o mar, de bruços, plácido, como se respirássemos um no outro. Um helicóptero fora enviado para inspecionar, em rotina por escombros e morte, os restolhos da desgraça. Em seguida seria uma enfermaria tumultuada, talvez injeções e provavelmente claustros pela vida afora”.
Primeiro volume em prosa de Guilherme Scalzilli – O Colar da Carol tá na grama, poemas, 1991 - A Colina da Providência tomou do autor mais de seis anos e inúmeras revisões, o que talvez tenha lhe permitido amadurecer tanto. Além de um pleno e criativo domínio da linguagem, atenuado apenas em um ou outro conto, Scalzilli também é ótimo no que diz respeito à densidade psicológica de seus personagens e situações – prova de que as impressões de um poeta são sempre mais pungentes. Contos como Velho, Bolha, Mimo, Ela e O louco são notórios.
Em Mimo, por exemplo, dois amigos perdidos num fim de noite mais que ingrato: “Fumas teu cigarro são, enquanto o moleque, poeta, vomita. Um galo, teu sono, o mal estar dele. palavras gentis permitiriam novos vômitos. Não, não ser pretexto para um sofrimento tão fácil. Cômodo morrer nas mãos de um amigo. Não. Nas minhas não. É o que penso. Vai, levanta, infeliz. Assume que te podem melhor e principalmente que queres mais”.
Jornal O Povo, de Fortaleza (CE). Ano 3, número 169 (1º de novembro de 1997), caderno Sábado, página 5